9. TECNOLOGIA E MEIO AMBIENTE 10.10.12

1. A CICLOVIA DO FUTURO
2. DEU A LOUCA NOS MARES

1. A CICLOVIA DO FUTURO
Projetos em Londres e no Qatar separam fisicamente bicicletas de carros e reforam tese da impossibilidade de coexistncia entre ciclista e motorista nas vias pblicas
 Edson Franco

PROTEGIDOS - At 2015, os londrinos vo pedalar em cilindros suspensos, acima dos carros
 
Em junho deste ano, o filme E.T.  O Extraterrestre completou 30 anos. Dirigido por Steven Spielberg, o longa perpetuou na memria coletiva a antolgica cena das bicicletas voadoras. Quando o blockbuster estreou, o designer neozelands Sam Martin tinha apenas dez anos. Agora, trs dcadas depois, ele lanou um sistema que se inspira no filme, torna mais seguro o deslocamento de ciclistas e promete transformar Londres na capital mundial das bicicletas voadoras.

Batizado de SkyCycle, o projeto se baseia na construo de ciclovias acopladas a vias suspensas j existentes, como viadutos e ferrovias. A ideia original apareceu na dissertao de mestrado de Oli Clark, scio de Martin na empresa de planejamento urbano Exterior Architecture, com sede em Londres. A juno de simplicidade de conceito com beleza esttica e eficincia na proposta angariou um aliado fundamental. Entusiasmado, o prefeito de Londres, Boris Johnson, chamou os dois idealizadores ao seu escritrio. Na companhia do secretrio de Transportes, o prefeito ouviu detalhes e decidiu organizar novas reunies para a possvel implantao do projeto. Tenho esperana de que, em cinco anos, o SkyCycle j esteja plenamente instalado em Londres, disse Martin  ISTO.

At l, alguns ajustes finos tm de ser feitos. Os idealizadores e o poder pblico ainda estudam se  melhor fazer um tubo cercado de vidro ou de outro material mais poroso, que facilitaria a ventilao da ciclovia. A maior tachinha no caminho da ciclovia suspensa, no entanto,  a negociao com os donos dos terrenos e obras pelas quais o projeto ir passar. Precisamos identificar quem so os diversos proprietrios e convenc-los a se engajar no projeto, diz Martin. Sem isso, os custos seriam proibitivos. Os proprietrios que mais interessam so aqueles que detm os direitos sobre as ferrovias suspensas. Comandantes de um sistema que recorta vrios pontos da cidade, eles vo facilitar muito as coisas nos momentos em que, para a construo da ciclovia, seja necessria a carssima operao de fechar uma ferrovia por um tempo.

Outro projeto de ciclovia que isola fisicamente ciclistas e motoristas ser implantado em Doha, capital do Qatar. Ali, alm de lidar com o problema do trnsito, os projetistas enfrentaram um desafio bem maior: como refrescar a ciclovia num lugar do mundo em que os termmetros podem bater na casa dos 50C? Criamos um ambiente de temperatura controlada. Isso inclui a cobertura e um sistema de resfriamento que usa energia solar e guas subterrneas, afirma Adnan Rahman, que participou da concepo do projeto e hoje  o responsvel pela filial holandesa da Cambridge Systematics  empresa que desenvolve solues para transporte.

Sero cerca de 35 km de ciclovia contornando a orla de Doha e avanando pelo centro da cidade. Mais do que uma forma de integrar o sistema de transporte, o projeto  fruto de outra demanda. Ao notar que aumentava o nmero de casos de problemas cardiovasculares entre a populao adulta e que as crianas estavam obesas, o emir Hamad bin Khalifa al Thani resolveu colocar todo mundo para pedalar. Fez duas exigncias aos projetistas: conforto e segurana. Optou-se pela ciclovia fechada.

Nem sempre isolar os ciclistas em redomas inexpugnveis  uma sada possvel. Nesses casos,  preciso trabalhar para que a bicicleta adquira o real status de meio de transporte. Ajuda se o nmero de ciclistas aumentar a ponto de eles se tornarem parte permanente do cenrio, diz Rahman. Mesmo em locais assim, a soluo mais comum  o isolamento: Aqui na Alemanha, onde h 57 mil quilmetros de ciclovias e muita gente de bike,  tudo segregado. Os motoristas no gostam de dividir as ruas, diz Renata Falzoni, videorreprter e cicloativista que percorria cidades alems na semana passada. Mais um indcio de que, talvez, a melhor sada para a convivncia entre ciclistas e motoristas seja mesmo a separao de corpos. 


2. DEU A LOUCA NOS MARES
Ao desregrada e barulhenta do homem nas guas do planeta gera baleias surdas, golfinhos desorientados, moluscos que desaprendem a se defender e trutas "viciadas"
Juliana Tiraboschi

 GRITOS DE ALERTA - Baleias como as belugas mudam a voz em reas ruidosas e algumas at apresentam perdas auditivas
 
Em 2000, um massacre aconteceu nas Bahamas. Dezesseis baleias e um golfinho encalharam na praia e morreram aps a Marinha americana realizar um teste com um sonar, uma operao que pode produzir um volume de som de 235 decibis, 85 dB a mais que os gerados pela decolagem de um jato. Pesquisadores do Instituto Earthwatch (EUA) encontraram danos internos nos animais relacionados com a exposio a esse tipo de barulho. A prpria Marinha admitiu que o teste pode ter influenciado no encalhe em massa. Esse  s um exemplo de como atividades humanas nas guas do planeta esto desorientando, ensurdecendo, enlouquecendo e at drogando a fauna aqutica. 

Nenhum curso dgua fica de fora. Nos oceanos, o maior problema  o mesmo barulho que provocou o massacre acima. Alm das embarcaes, a poluio sonora pode vir de obras nas orlas e de atividades porturias. Cetceos, como baleias e golfinhos, vivem em grupo e usam vocalizaes para se comunicar.  assim que encontram alimento e acasalam. Se h falhas nessa conversa, sua sobrevivncia  posta sob risco.

Uma pesquisa da Universidade Estadual da Pensilvnia (a Penn State, nos EUA), publicada em 2010, mostrou que baleias-francas mudam a frequncia de suas vocalizaes para compensar o rudo de embarcaes. O mesmo fenmeno j foi detectado em belugas e orcas e, no Brasil, em toninhas  tambm conhecidas como golfinhos-do-rio-da-prata. Segundo Marta Cremer, professora de cincias biolgicas da Universidade da Regio de Joinville (Univille) e coordenadora do Projeto Toninhas,  difcil medir se e quanto a poluio sonora altera os comportamentos. Mas gravaes feitas por sua equipe mostram que, quando h barcos por perto, os golfinhos emitem um som mais agudo. Alm de atrapalhar a comunicao, os pesquisadores acreditam que o barulho excessivo pode provocar surdez. Em humanos, uma exposio prolongada a 80 dB (o equivalente ao som de um liquidificador) pode causar perdas auditivas. Algum que trabalhe oito horas dirias em ambiente com um barulho desse ter a audio prejudicada em alguns anos. Um cargueiro emite rudos de at 150 dB. Alm disso, achamos que esse barulho causa desgaste fsico e estresse, diz Marta.
 
A Universidade Estadual Paulista (Unesp) tambm investiga o nvel de rudo no litoral de So Paulo. Por enquanto, o trabalho est focado em identificar as caractersticas das fontes de som nas guas: ventos, turbulncias, abalos ssmicos e barulhos emitidos por animais. A assinatura acstica de uma praia arenosa  diferente da encontrada em um costo rochoso. Esse conjunto de sons ajuda os bichos a se orientar. Nosso objetivo  identificar as fontes de som, compar-las e estudar a importncia delas para as espcies, diz Mario Rollo, professor do Campus Experimental do Litoral Paulista da Unesp. 

Barulho no  o nico problema. Uma pesquisa da Universidade James Cook, na Austrlia, mostrou que o dixido de carbono, emitido na queima de combustveis fsseis, est deixado os peixes loucos. O pesquisador Philip Munday levou para seu laboratrio diferentes espcies  entre elas, o peixe-palhao, o Nemo  e as exps a um nvel de CO2 de 850 partes por milho, concentrao prevista para 2100 se no reduzirmos as emisses. Ao devolv-los para o mar, o cientista observou que a mortalidade multiplicou-se por nove. Esses peixes costumam se proteger entre corais. Mas, intoxicados, nadavam a distncias mais longas, se expondo a predadores. Acreditamos que o CO2 afeta a transmisso de estmulos neuronais no crebro, diz Munday.

Problema parecido aconteceu com uma espcie de lesma-do-mar conhecida por abalone chileno, ou loco. Esse molusco  capaz de perceber a presena de caranguejos predadores e fugir. Quando exposto a guas mais cidas, perde essa habilidade. Nossas emisses de CO2 esto baixando o pH do mar, aumentando a sua acidez, diz o pesquisador Patricio Manriquez.
 
Como se no bastassem essas perturbaes, ainda estamos drogando nossos peixes. Uma pesquisa da Universidade de Montreal, no Canad, encontrou nveis significativos de frmacos usados em antidepressivos nos fgados, crebros e msculos de trutas-das-fontes. Resduos desses medicamentos saem do organismo dos pacientes e vo parar nos esgotos, que por sua vez seguem para os rios. O estudo constatou que essa exposio causa alteraes nas atividades neurais, mas ainda no se sabe quais so as consequncias dessas mudanas. 
Para minimizar esses problemas, no  preciso interromper atividades importantes para a economia. Incentivar fontes alternativas de energia, desenvolver motores silenciosos e estabelecer algumas zonas livres de rudos, alm de melhorar nossos sistemas de tratamento de gua, so medidas que j ajudariam a dar mais paz e sanidade aos bichos.

